Entrevistas

Nenéu Liberalquino inaugura série de vídeos com violonistas pernambucanos

(Nenéu Liberalquino)

Por Rosualdo Rodrigues

Nenéu Liberalquino é dono de trajetória bastante singular na música. Começou aos 7 anos, cantando. Aos 16, descobriu o interesse pelo violão. Parte de sua história, ele conta no primeiro de uma série de sete vídeos com alguns dos principais nomes do violão pernambucano, que o Acervo do Violão Brasileiro publicará a partir desta segunda-feira (5/11).

No vídeo gravado no Estúdio Muzak, Nenéu é entrevistado pelo diretor do Acervo, Alessandro Soares, e interpreta duas músicas, Insensatez (Tom Jobim e Vinícius de Moraes) e Mana, de sua autoria. “Mana foi a minha primeira composição para violão, fiz em homenagem à minha mulher”, ele conta.

Influência familiar

No entanto, antes de chegar a compor com o instrumento, o pernambucano quis ser cantor (até ganhou um concurso de melhor cantor infantil do Nordeste, promovido pela Rede Globo) e pensou em tocar piano. Mas acabou prevalecendo a influência de uma das irmãs, que tocava violão.

 “Tem uma passagem muito interessante na minha vida. Meu pai me levou para conversar com um maestro para que ele indicasse qual instrumento seria mais adequado para mim. Eu disse pra ele que gostaria de tocar piano, mas ele me olhou dos pés à cabeça bem demoradamente e disse: ‘Olhe, o único instrumento que seu filho poderia tocar seria flautim’”.

A sugestão não empolgou o garoto. “Vendo minha irmã tocando violão, comecei a imaginar a possibilidade de tocar o instrumento”. Primeiro, porém, teria de vencer as limitações que enfrentava por causa da sua pequena estatura.

Técnica original

“Comecei a experimentar o violão na posição tradicional, mas senti muita dificuldade de fazer a pestana. Aí me veio a ideia de colocar o instrumento na posição horizontal. Comecei a tocar usando uma corda só, melodias bem simples. Depois passei a experimentar as três primeiras cordas, conseguindo fazer pequenos acordes.

“Fui percebendo que sobrava dedo, que eu podia usar os cinco, se quisesse. Aí comecei a usar as outras cordas. Foi todo um processo de erros e tentativas”, conta. Nisso, ajudaram muito os discos que ouvia. “Colocava o disco na radiola e ficava tentando tirar de ouvido tudo aquilo: Baden Powell, Paulinho Nogueira, todas essas pessoas que fazem parte da grande escola do violão brasileiro”.

Quando chegou a hora de ir para a universidade, Nenéu escolheu fazer Letras. Só quando concluiu o curso é que passou a se dedicar totalmente à música. “Meu aprendizado como violonista foi todo empírico, mas isso me trouxe realmente uma coisa muito boa, certa percepção harmônica que fui desenvolvendo ao longo do tempo”.

Formação nos Estados Unidos

Nenéu afirma que tem a harmonia como um elemento muito importante, seja como arranjador ou compositor. “Comecei, inclusive, a escrever arranjos, mesmo não sabendo exatamente o que estava fazendo. Fazia os acordes, sabia harmonizar qualquer coisa, mas não sabia muitas vezes qual era a função daqueles acordes, por que estava usando”.

Quando resolveu estudar nos Estados Unidos, Nenéu buscava não uma formação como violonista. “Minha busca era entender a linguagem musical como um todo. Estudei uma parte erudita, a regência, e a técnica de arranjo, que era ligada mais à música popular, um interesse meu porque, como violonista, eu vinha do popular”.

Na Berklee College of Music, em Boston, Nenéu Liberalquino estudou com o maestro David Callahan, o compositor Thomas McGah, com o trompetista Herb Pomeroy e o saxofonista e arranjador Bob Freedman.

Primeiro disco

De volta ao Brasil, continuou estudando regência, análise harmônica e composição. Também deu aulas de harmonia jazzística e violão popular e atuou como regente da Camerata de Violões e do coro do Centro Experimental de Música do Sesc São Paulo.

“Quando voltei, comecei a compor algumas peças para violão e juntei os arranjos que já tinha, fiz algumas composições,  preparei todo o material do primeiro disco”. Lançado em 1994, pela Polydisc/Sony Music, o álbum teve produção de Zé da Flauta e, no encarte, texto de Paulinho Nogueira, de quem Nenéu se aproximou quando se mudou de Recife para São Paulo, antes de ir para os Estados Unidos.

“Lembro que quando toquei pra Paulinho, ele disse: ‘olha, você está pronto pra fazer o seu disco’. Eu falei: ‘Paulinho, quero estudar música porque trabalho de ouvido. Não sei o que estou fazendo. Quero entender. E foi aí que realmente comecei a estudar a linguagem”.

Repercussão na Europa

O segundo disco saiu dois anos depois, produzido pelo selo europeu GHA Records, especializado em música para violão. “Infelizmente, não veio para o Brasil, mas foi muito importante para que meu trabalho fosse conhecido na Europa”. Em 2002, foi lançado Acqualuz, terceiro CD do violonista e o primeiro com o trio.

Em 2002, veio também o convite para ser regente titular e diretor artístico da Banda Sinfônica do Recife. Desde então, Nenéu Liberalquino se divide entre essa atividade, presenças freqüentes em festivais, participações em discos (como convidado ou arranjador) e os projetos próprios. Em 2013, estreou o show Brasilis, que deu origem ao quarto álbum, lançado no ano seguinte com o mesmo título.

Gravados no Estúdio Muzak com apoio da Cabra Quente Filmes, os vídeos desta série do Acervo do Violão Brasileiro foram dirigidos e filmados por Rodrigo Barros e editados por Woody Willen. Os próximos trarão Vinícius Sarmento, Marco César com João Paulo Albertim e Pepê e o Duo Rubem França e Renan Melo. A série é um oferecimento do Estúdio Muzak e da NIG Music, com apoio da Mobidic Chords e da Help Informática.

 

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