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Livro de partituras inéditas de Garoto é publicado no Acervo Digital do Violão Brasileiro

Por Alessandro Soares

“Tempo brusco, faz calor. Programa Um Milhão de Melodias às 21:35. Depois do ensaio na rádio, componho um pequeno concerto para violão tenor em ritmo de choro.” Assim Aníbal Augusto Sardinha (1955-1955), o Garoto, escreve no próprio diário, em 27 de dezembro de 1944. Esta é a primeira de várias anotações sobre a peça, ainda em gestação, que será tocada em janeiro do ano seguinte na Rádio Nacional.  

Passados 72 anos da estreia em rádio, a obra permanece inédita em disco. Nem há vestígio de gravação doméstica. Mas a grade completa da partitura, com arranjo de Radamés Gnattali, acaba de ser publicada e representa uma das preciosidades do álbum Garoto: partituras Inéditas, que o Acervo Digital do Violão Brasileiro disponibiliza com exclusividade a partir desta segunda-feira (17), com acesso gratuito. Baixe o livro na Biblioteca do Acervo.

Formado por 64 páginas, o livro tem nove partituras, sendo oito de autoria de Garoto e uma de Guinga, composta em tributo a este que é considerado o pai do violão moderno no Brasil. Mais conhecido como autor de choros e valsas - a maioria delas sem parceria – este álbum mostra um Garoto autor de outros gêneros (a exemplo de concerto, prelúdio e fox) junto com cinco parceiros.  

Com transcrições e revisão do pianista e arranjador Henrique Gomide, as partituras são intercaladas por textos de Jorge Mello, biógrafo e dono do mais valioso acervo sobre Garoto, revelando fatos históricos e curiosidades sobre cada obra, extraídos do diário do compositor e de antigos jornais. O projeto gráfico da designer Teresa Maita valoria o fac-símile de alguns manuscritos.

Shows e vídeos

O livro digital integra a série Garoto: o gênio das cordas, que tem direção geral da produtora Myriam Taubkin e patrocínio da Natura Musical. O ciclo iniciou em 2016 com dois shows históricos e emocionantes nos dias 23 e 24 de setembro, no Sesc Pinheiros, em São Paulo, com a participação de grandes músicos como Yamandu Costa, Paulo Bellinati, Henrique Cazes, Marcello Gonçalves, Guilherme Held, grupo Moderna Tradição, Caixa Cubo Trio e a cantora Xênia França, com direção musical de Henrique Gomide.

“Mergulhamos na vontade de apresentar uma celebração de responsa, que fizesse jus à grandeza e ao talento de Garoto. Destas noites resultaram 20 vídeos, com todas as músicas contidas nos espetáculos. Estão disponíveis na página www.youtube.com/taubkinmy, do Projeto Memória Brasileira e na página do FB www.facebook.com/garotodoc”, destaca Myriam no prefácio do livro. E o álbum de partitura vem coroar o ciclo de homenagens.

Além disso, em breve será concluído um documentário sobre Garoto, produzido por Rafael Veríssimo, Henrique Gomide e Lucas Nobile, que junto a Gabriel Fontes Paiva (diretor cênico dos shows e parceiro de Myriam no Projeto Memória Brasileira), assinam a idealização da série de homenagens a Garoto.

As músicas do livro

Este livro surge, portanto, como consulta obrigatória para se conhecer um pouco mais sobre Garoto e para quem deseja desenvolver um repertório totalmente inexplorado sobre o compositor.

Além do Concerto em Ritmo de Choro, o livro traz outra grade: o samba Fantasia, escrita para cinco instrumentos (piano, guitarra, baixo, sanfona e bateria), também com arranjo de Radamés Gnattali. O curioso é que esta música, segundo Henrique Gomide, tem ideias musicais encontradas em três outras obras de Garoto (Relógio da VovóLamentos do Morro Duas Contas).

Mas a maior parte das peças é no formato melodia e cifra, a exemplo do prelúdio A Saudade, composta por volta de 1937, época em que Garoto tocava violão a quatro mãos com Aymoré. Usando um único instrumento, Garoto tocava na região mais aguda, enquanto Aimoré ficava na mais grave.  

E haja raridade, como É Impossível, cuja letra é de Garoto, o samba Não Pôde Ser e o fox Suplicando, última parceria entre Garoto e Luís Bittencourt, que foi apresentado em versão instrumental no programa Um Milhão de Melodias, da Rádio Nacional. Mas a letra de Bittencourt foi extraviada.

Há no livro, no entanto, pelo menos dois títulos que tiveram gravação comercial, embora parmenecessem inéditas em partitura. Uma delas é o samba-canção Desejo, que Garoto compôs em parceria de José Vasconcellos (o famoso humorista), para o filme Chico Viola Não Morreu, de 1955, estrelado por Cyll Farney (interpretando o cantor Francisco Alves), Eva Vilma, Wilson Grey e Wilza Carla. Naquele mesmo ano, Desejo foi registrada em disco pela cantora Sylvia Telles). A outra é Teu Olhar, parceria de Garoto com Valzinho, da década de 1940, gravada em 1979 por Zezé Gonzaga, embora com letra diferente da original.  

A última partitura do livro é a bela Despedida de Garoto, para violão solo, que Guinga compôs especialmente para o projeto e que pode ser conferido em vídeo.

Este livro é fundamental não apenas por mostrar um lado até então desconhecido da genialidade de Garoto, mas também para constatar o quanto o Brasil tem história musical. Mas insiste em ignorar seus tesouros, que ficam submersos, mal tratados, sem visibilidade, até desaparecerem por completo. O que está no radar de iniciativas de registro e memória como essa, felizmente, está salvo.  

Projeto Memória Brasileira

Este trabalho é mais um importante capítulo das contribuições da produtora Myriam Taubkin, à frente do Projeto Memória Brasileira, a exemplo dos shows e do CD Violões, que começou em 1989, teve continuidade no CD Viva Garoto (1993) passando pelo livro-DVD Violões do Brasil (2004), escrito junto com Maria Luíza Kfouri, e o projeto Violeiros do Brasil (2007), só para citar as ações diretamente voltada para o campo dos instrumentos de cordas.

Para mim, é uma grande honra ter sido convidado pela Myriam para abrigar e difundir essas partituras inéditas de Garoto por meio do Acervo Digital do Violão Brasileiro. Em breve vamos contar mais novidades deste projeto.

Sobre Garoto  

Baden Powell, Raphael Rabello, Paulo Bellinati, Yamandu Costa e Marcus Tardelli, só para citar alguns dos maiores violonistas brasileiros, consideram Garoto como o pai do violão moderno, o reformulador da linguagem harmônica do violão. As peças inovadoras de Garoto estão presentes no repertório de grandes instrumentistas da atualidade, em várias partes do mundo.

O idioma musical de Aníbal Augusto Sardinha, o Garoto, é bem evidente. Foi ele quem primeiro adotou no violão os acordes dissonantes com os chamados intervalos de sétima maior, nona e décima terceira, assim como os intervalos aumentados, que tanto se popularizaram no Brasil a partir da bossa nova. Garoto também explorava bem o desenvolvimento de melodias a partir da sequência de acordes.

Tais novidades sonoras encontram-se nas composições, marcadas tanto pela linguagem da tradição musical brasileira, quanto pelo uso de elementos jazzísticos e da escola dos impressionistas franceses. Se até meados de 1980, Garoto era mais lembrado como autor de Gente Humilde e Duas Contas, atualmente é dos compositores brasileiros mais lembrados, por meio de sucessos como Lamentos do Morro, Jorge da Fusa, Tristezas de Um Violão, Desvairada e Gracioso.  

Serviço:

Livro: Garoto: partituras inéditas

Autores: Henrique Gomide (transcrições) e Jorge Mello (pesquisa e textos)

N. Páginas: 64

Obs: o livro integra a série Garoto, o gênio das cordas

Disponibilidade: download gratuito na Biblioteca do Acervo Digital do Violão

Garoto aos 16 anos tocando banjo / Acervo Jorge Mello

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