Cartas de amor

A música peruana e o legado do violonista Raúl García Zárate

Rául García Zárate em sua casa com Fabiano Borges (arquivo pessoal, 2006).

Por Fabiano Borges

No próximo dia 29 de outubro completa-se um ano da morte do violonista peruano Raúl García Zárate (1931-2017), aos 85 anos de idade, vítima de pneumonia. O fato foi noticiado pelos principais jornais do Peru, tendo recebido nota de pesar por parte das autoridades do governo peruano. Uma repercussão que dá a dimensão da grandeza do artista para a cultura do país vizinho.

Um dos nomes mais importantes na difusão do violão andino no Peru, Zárate nasceu em Huamanga, região de Ayacucho, em 12 de dezembro de 1931. A experiência em sua cidade natal, ainda na primeira metade do século 20, foi fundamental para a vivência com o folclore e com a cultura andina.

Embora tenha exercido a carreira de advogado do Estado por mais de 20 anos, sempre atuou em diversos ramos musicais, incluindo gravações em duo com seu irmão (Dúo Hermanos García Zárate), programas musicais de rádio e afins.

Zárate e o violão andino

É difícil determinar quando precisamente foi iniciada a expressão “guitarra andina” (violão andino), mas é razoável supor que o violão chegou à América pelas mãos dos espanhóis e acompanhou as transformações daquela região da América.

Embora a música andina seja interpretada comumente com instrumentos originais da região dos Andes – tais como quena, zampoña, charango e bombo –, o violão também cumpriu papel fundamental para a difusão dessa música ao longo do século 20.

De fato, o violão foi utilizado para interpretar temas famosos, mas também foi uma ferramenta de recopilação de temas folclóricos menos conhecidos do grande público.

O fato é que Don Raúl — como chamavam músicos mais próximos de Zárate — incorporou a música andina para violão solo de maneira peculiar e foi um dos primeiros violonistas a registrar o gênero huayno para o violão solo.

Um dos aspectos técnicos chamativos para os violonistas brasileiros ao se depararem com o violão andino é a quantidade de afinações distintas (“temples”). Em entrevista a Pajuelo, Zárate lembrou que seu pai costumava tocar em três afinações. Assim, desde os primeiros anos de aprendizado musical em Huamanga, já estava familiarizado com esse sistema no violão andino solista.

Vida e obra em análise

Durante anos houve discussão sobre o fato de Raúl García Zárate ser um insider ou outsider do violão andino. O músico e pesquisador peruano Camilo Pajuelo Valdez elaborou um dos trabalhos mais robustos sobre sua obra e vida por meio da dissertação de mestrado defendida em Helsinki (Finlândia), em 2005.

Ao se aprofundar sobre aspectos culturais da formação de Zárate, Pajuelo lembra-nos que — na visão do antropólogo, também peruano, Rodrigo Montoya — o célebre violonista ayacuchano representaria o esforço mais bem-sucedido da chamada música mestiça em Huamanga, mesmo que sua imagem tenha sido frequentemente associada à de um “guitarrista señorial”.

Ainda que a composição não fosse o centro do trabalho do músico de Huamanga, Camilo Pajuelo argumenta que as adaptações de temas folclóricos peruanos se constituem em verdadeiros processos criativos. Em seu estudo, apurou pelo menos 60 adaptações de Zárate gravadas.

Nos primeiros discos gravados nos anos de 1960, prevaleciam os temas folclóricos provenientes de sua região de Ayacucho. Contudo, nos idos de 1970, o violonista começou a registrar temas folclóricos mais conhecidos, a exemplo de El Cóndor Pasa e Vírgenes del Sol. Em 1966, gravou o célebre álbum Ayacucho, que bateu recorde de vendas à época, a despeito da desconfiança sobre a viabilidade de gravar música andina ao violão.

Matéria escrita por Mario Orozco Cáceres para o El Tiempo, jornal de Piura

Na década de 1970, Zárate gravou registros fonográficos em vários países e atuou em diversos palcos do mundo como concertista, dividindo recitais com violonistas de renome, a exemplo de Andrés Segovia.

Seu prestígio extrapola o meio musical, pois recebeu várias condecorações do Estado peruano, com destaque para o reconhecimento pelo Ministério de Cultura do Peru como Patrimônio Cultural Vivo del Perú. Em que pese tudo isso, nunca se apresentou no Brasil.

Transcrições do violão andino

A partir da década de 1980, a influência de Raúl García Zárate se intensificou no Peru. Desse modo, o violonista Javier Echecopar Mongilardi iniciou a tarefa de elaborar transcrições para o violão andino, trabalhando juntamente com ele e com outro violonista ayacuchano, Manuelcha Prado.

Para tanto, foi necessário criar novas simbologias, tendo em vista que não era possível expressar os arranjos para violão andino com a precisão necessária mediante a forma clássica vigente.

Após o trabalho de Javier Echecopar, Javier Molina Salcedo seguiu a tarefa de transcrever a música peruana para violão. Publicou seis volumes intitulados Seis Cuerdas por los Caminos del Perú, cujo trabalho inclui temas de Raúl García Zárate, Manuelcha Prado e adaptações e arranjos do próprio Javier.

Tais trabalhos de transcrição em livros foram viabilizados graças à produção cultural de Mario Cerrón Fetta. Não obstante, Javier Molina continuou publicando por sua conta mais 15 volumes de partituras com tablaturas, de maneira que é reconhecido como o violonista que mais editou partituras no Peru.

Ademais, vale lembrar que Javier Molina foi um dos primeiros a contribuir significativamente para o violão das regiões peruanas de Ancash e Cajamarca.

A influência de Raúl Garcia Zárate

Raúl García Zárate teve vários alunos no Peru. Nesse sentido, tive a honra de compartilhar vários momentos em Lima com Ricardo Villanueva, um de seus pupilos destacados. Além de realizar registros fonográficos e de organizar festivais em Lima, Villanueva contribuiu para a criação do curso de licenciatura, centrado em violão andino, na Universidad San Martín de Porres.

Matéria escrita por Marcela Robles escrita para o El Comercio, jornal peruano

A influência do violão de Raúl García não se restringe aos músicos peruanos, pois sua forma de tocar despertou o interesse de violonistas do mundo todo. Talvez o caso mais emblemático tenha sido Shin Sasakubo, exímio violonista japonês que morou quatro anos no Peru com o intuito de estudar a música peruana, em especial a música da região de Ayacucho.

Meu encontro com Zárate

Na minha primeira estada no Peru, em 2006, fui surpreendido por um mundo novo que se revelava para mim. As músicas folclóricas eram tocadas em vários locais por onde eu passava, a culinária era extremamente rica e havia uma intensa dinâmica de festivais de música.

Mais de uma década se passou, depois de minha primeira experiência no país, e a minha boa relação com os peruanos só aumenta. Desde 2006, tive o privilégio de conhecer e interagir com vários músicos de lá, a exemplo de Denys Bernard, Ricardo Villanueva, Ernesto Hermoza, Riber Oré, Mario Zedog, Sergio Valdeos...

Já Mario Orozco Cáceres tornou-se um grande amigo desde o ano de 2006 e foi o grande responsável pelo fato de eu me aprofundar no estudo da música peruana. Desde minha primeira estada no país, Mario explicou-me as diferenças da música das chamadas três regiões: costa, serra e selva.

Em que pese a sua dedicação pela chamada “música costera”, sobretudo do norte do Peru, Mario Orozco sempre tocou com fluência a música peruana das três regiões e nutria um carinho especial pelo ayacuchano Raúl García Zárate.

De fato, impressionava-me a afinidade dos dois músicos, de modo que a maior parte dos encontros que tive com Raúl García Zárate ocorreu nos saraus organizados na casa de Orozco. Bastava ele organizar um evento musical em sua casa que eu já sabia que poderíamos contar com a presença de Raúl García.

Num próximo artigo, falarei mais sobre esse contato com a música peruana e suas peculiaridades.

(*) Fabiano Borges é violonista. Integrou a Orquestra de Violões de Brasília, é mestre em Música pela Universidade de Brasília (UnB) e tem gravados dois álbuns duplos, Sete Cordas (2012) e Latinoamérica (2015), e um DVD, Concierto Latinoamericano (2013). Saiba mais aqui.

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